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Se você acompanha bem o noticiário já deve ter ouvido falar do open banking, um futuro modelo de padronização do sistema financeiro em que os dados de clientes serão facilmente compartilhados, para que o consumidor possa migrar de um banco a outro sem problemas. Agora o setor de entregas discute algo parecido: o open delivery.

Antes de explicar isso, é preciso trazer um pouco de contexto. Este mercado é formado por diferentes atores: há os apps e plataformas, que funcionam no esquema marketplace, isto é, como um espaço livre para quem quiser vender seus alimentos; há os bares, restaurantes, cozinhas, supermercados e fornecedores de marmitas, que gerenciam o fluxo de refeições; há os entregadores e sua respectiva logística; há sistemas que aceitam diferentes formas de pagamento; e claro, há os clientes.

Até então, cada plataforma de delivery fazia tudo do seu jeito, com seus próprios softwares de gestão e tratamento de dados. Se um restaurante aderir ao iFood, precisa se cadastrar, mas se quiser também estar no Uber Eats, vai ter que repetir o processo todo, com pequenas alterações. Em resumo, em termos de tecnologia da informação as plataformas não "conversam" entre si. "Isso cria uma complexidade muito alta, e não só com dados de pedidos, mas sobre os cardápios, endereços de entrega, formas de pagamentos", explica Miguel Neto, CEO da Quero, plataforma de Sergipe.

O que o modelo de open delivery fará, pelo menos na teoria, é padronizar tudo. Os debates ainda estão ocorrendo por iniciativa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), mas se as empresas decidirem os protocolos de tecnologia, um mesmo sistema de código aberto será responsável pela gestão de todas os serviços de entrega. E com isso, bares e restaurantes teriam mais liberdade para entrar ou sair de qualquer plataforma.

“É uma solução que uniformiza as informações, poupa tempo e facilita a conexão dos estabelecimentos a plataformas, além de organizar a relação entre players [empresas] de logística, tecnologia, pagamentos. Isso traz mais competição e, portanto, mais produtividade e eficiência para o delivery. Uma solução democrática e inclusiva”, diz o presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, no site da entidade.

A concorrência será mais justa, na visão de quem encampa a ideia. "Se você tem um player que domina mais da metade do mercado, cria-se uma dependência muito grande dele, como é o caso do iFood. A Abrasel viu isso e com o open delivery espera tirar esse padrão do iFood, para que outras plataformas consigam participar", argumenta.

Imagem: Reprodução/Kai Pilger/Unsplash

Segundo a Folha de S. Paulo, o projeto já chegou à primeira versão e foi apresentado a restaurantes na segunda (13). "As empresas de maior relevância ainda estão reticentes a aderir, pois como é uma coisa muito nova, há vários interesses de cada empresa. Mas quase todas as plataformas sao entusiastas a isso", afirma Neto.

A reportagem da Folha diz que o iFood aceitou o convite da Abrasel para participar do conselho de governança do open delivery, mas não definiu ainda se irá aderir à futura plataforma. O Rappi dizer pensar a respeito, e o Uber, dona do Uber Eats, não respondeu.

De acordo com a Abrasel, as vantagens do modelo são:

  • Facilidade de conexão: com um modelo aberto, a troca e transferência de dados dos restaurantes fluirá mais facilmente entre plataformas ;
  • Mais visibilidade para restaurantes: um pequeno estabelecimento que antes só constava em um ou dois serviços poderá estar em todos de forma simples, ampliando sua presença digital;
  • Melhor gestão de dados: eventuais alterações e atualizações poderão ocorrer em várias plataformas ao mesmo tempo, como novos itens no cardápio ou mudança de endereço;
  • Melhor logística: o novo modelo deve permitir uma conexão mais fácil dos restaurantes com todas as empresas terceirizadas de entregas de refeições;
  • Taxas menores: os preços cobrados pelas plataformas poderão cair com o aumento da concorrência:
  • Reduz chances de monopólios: em março deste ano, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (SG/Cade) impôs, uma medida preventiva contra o iFood para proibi-lo de firmar contratos de exclusividade com restaurantes usando de seu poder de mercado. O modelo open delivery será um aditivo para manter o livre mercado e evitar situações como esta, segundo a Abrasel.

Só o tempo dirá se o open delivery vai vingar. Por ora, novas startups do setor, como Quiq e Delivery Center, já fazem experimentos com plataformas abertas. Há ainda a expectativa de fomento de novas empresas para o setor caso as grandes empresas decidam unificar seus protocolos.

Fonte: Abrasel, Folha de S. Paulo

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