A reivenção da italianidade


Saiu, por esses dias, uma pesquisa do Datafolha sobre os restaurantes de São Paulo.  Lá pelas tantas, aparece no texto de divulgação da pesquisa a vaga informação de que teria ocorrido, nos últimos anos, uma queda de frequência nos restaurantes italianos. Fica-se sem saber o que de fato ocorreu, e como ocorreu.  Ao mesmo tempo, constatou-se que o primeiro lugar da preferência popular, na categoria dos italianos, coube ao restaurante Famiglia Mancini.

Conheço mais ou menos a história da casa.  O fundador e dono, Walter Mancini, jamais parou de inová-la por dentro. E, há dez anos, resolveu fazer uma inovação do lado de fora.  Internamente, reduziu o tamanho dos pratos, que antes eram servidos em grandes travessas. Poucos ainda querem saber das comilanças.  A desmedida fartura à mesa era a marca registrada das tradicionais cantinas paulistanas. Hoje, a turma está de olho no peso, aquele que sai do prato e vai para o corpo.

Mas, Walter não ficou só nisso.  Foi muitíssimo além.  Partiu para ampla mudança externa. Promoveu a reforma geral dos 140 metros da Rua Avanhandava, em que se situa o Famiglia Mancini, entre os bairros da Bela Vista e da Consolação.  Mudou o calçamento, alargou o passeio, trocou a iluminação de vapor de sódio pela de LED, colocou na entrada da pequena via um pórtico e duas fontes d’água.  Coisa de louco.  Fez, assim, um pequeno e charmosíssimo bulevar, inaugurado em 20 de janeiro de 2007.

Walter tem mais três restaurantes na mesma rua. Podem até dizer que esta é a razão de ele ter investido tanto em uma via que não é de sua propriedade; é pública.  Na verdade, há na Avanhadava empreendimentos de terceiros e, ainda, edifícios privados. O empresário de fato ousou.  E como ousou.  É um caso verdadeiramente raro. A rua virou ponto de atração turística. O povo vai lá se fotografar.

O fundamental dessa trajetória é entrar na essência do personagem em questão.  O dono do Famiglia Mancini sempre se reinventou, desde que inaugurou o restaurante há 27 anos.  Foi talvez o primeiro no país a substituir o couvert por um sistema opcional de bufê de queijos e frios, em que o cliente pode se servir, pesando o prato. O preço desse serviço de entrada se incorporará ao valor final de sua conta de almoço ou jantar. 

Em todas as mudanças, Walter nunca se desgarrou do fio condutor do seu estabelecimento: a italianidade.  Está certo, certíssimo. O mundo inteiro é fascinado com o modo italiano de ser: o gosto pela família, a mesa alegre, a música, as artes, a dedicação ao trabalho, a emotividade, o apego às crianças, a preservação dos laços comunitários, o prazer de plantar e de colher o tomate, o almeirão, a cebolinha e as flores.

Esse molho italiano explica, em grande parte, o interminável sucesso do filme O Poderoso Chefão, em suas três séries.  É o mais bem-acabado e celebrado filme de todos os tempos, conforme se apurou, no ano passado, em uma pesquisa realizada pela revista The Hollywood Reporter, junto a mais de 2 mil personalidades da indústria do cinema americano.  

As tantas milhões de pessoas que assistiram – e ainda assistem – ao filme de Francis Ford Coppola não foram atraídas somente pelas cenas de violência e morte. O que encantou e encanta esse mundaréu de gente é a pródiga italianidade de O Poderoso Chefão: a festa de casamento nos jardins do grande e acolhedor sobrado; a trilha sonora de Nino Rota; as paisagens dos penhascos sicilianos; o mafioso que, embora rude, se deixa trair por uma fagulha de emoção, no olhar ou na voz.

Vez ou outra, projeta-se alguma cena em um bar ou restaurante. Em uma das encostas íngremes da ilha de Sicília, está plantada a cidadezinha de Corleone.  É onde se desenrolaria a trama de Coppola.  No entanto, a filmagem se deu em Savoca, situada na mesma ilha. É como se um evento histórico tivesse ocorrido em Diamantina, mas a filmagem sobre ele fosse feita em Tiradentes. Voltando à narrativa da película, foi no vilarejo de Corleone que Michael (Al Pacino), filho do poderoso chefão (Marlon Brando), sentiu-se atingido por uma fulminante paixão à primeira vista, ao se deparar com a moça Appolonia Vitelli (Simonetta Sefanelli).

Ao ir ao bar do quase vilarejo, acompanhado de dois jovens guarda-costas, Michael ficou conhecendo o pai da beldade, já lhe pedindo o consentimento para se casar com a moça.  A ficção mistura-se com a realidade. Todos os que viajam a Savoca podem conhecer o bar que já existia há tempos, e, no filme, se tornou o estabelecimento do pai de Appolonia.  O bar sempre teve o mesmo que aparece no filme: Bar Vitelli.  A obra de Coppola é uma adaptação do livro de Mario Puzo, ‘The Godfather’ (O Padrinho).  No Brasil, ambos – o filme e o livro – receberam o título de O Poderoso Chefão.   

Pois a vida é assim. Vamos inventando e reinventando, misturando o real com o imaginário. Um restaurante italiano, no Brasil, não mais se parece com um restaurante da Itália de hoje. No entanto, quando saímos para almoçar ou jantar, buscando um ambiente que tenha alguma aura, o que importa é experimentar o sonho, a vivência, a idealização. Walter Mancini tem ido por esse caminho, desde que fundou o Famigilia Mancini, em 1980, oito anos depois que Coppola pegou a obra do escritor ítalo-americano Mario Puzo, recordista de vendas já no lançamento, em 1969, para transpô-la à tela e ao nosso imaginário.  

Moral da história: se é verdade que os paulistanos estão indo menos aos restaurantes italianos, chegou a hora dos donos dessas casas reverem os seus conceitos, adaptando-os aos dias que correm, mas sempre bebendo das inspiradoras águas da italianidade.   

Artigo: Paulo Solmucci
Fonte: Destrinchando