A gente não quer só comida


* Por Paulo Solmucci

É o apocalipse do comércio lojista do varejo.  Eis o cenário que se desenha no mundo, a partir dos Estados Unidos.  Os prognósticos são de que nos próximos anos um terço dos 1.100 shoppings americanos fechará as portas, transformando-se em cidades fantasmas.  A crise dos centros comerciais, geralmente situados nas áreas suburbanas das cidades estadunidenses, antecipa o que os analistas prognosticam para o varejo em geral.

O principal motivo da derrocada é a vertiginosa ascensão do comércio on-line dos produtos de reposição e dos artigos que o consumidor não precisa provar antes de comprar, seja um livro ou tênis da marca e do modelo que ele já usa. No caso dos shopping-centers, há  também quem aponte, como causa adicional do seu declínio, o renascimento das áreas centrais das cidades, com o consumidor recusando-se a se deslocar em grandes distâncias.

A previsão é de que as lojas de vendas a varejo sejam substituídas, nas ruas das cidades, por “showroomings”.  São lojas de experimentações, em que o consumidor conhece e testa os produtos expostos.  Quando encontra exatamente o que deseja, o consumidor realiza a compra pelo meio on-line.  Alguém que – por exemplo -  queira adquirir um tablet, irá ao “showrooming” de produtos digitais. Será atendido por um afável e bem treinado consultor, que ciceroneará o cliente em um passeio pela loja, percorrendo todos os modelos disponíveis.

O cliente pode ir ao “showrooming” em companhia da mulher e dos filhos. A recepção a eles será calorosa, com água, café e biscoitos. Ouvirão o pianista que, lá do fundo, desfia o repertório dos Beatles ou de artistas que estão nas paradas de sucesso.  Os produtos são manejáveis por todas as pessoas presentes. Quer dizer: propicia-se àquela família a oportunidade de uma convivência social, ainda que breve, com os demais visitantes do “showrooming”. 

A tradução da palavra vivência para a língua inglesa é “experience”.  Daí por que entre nós tornou-se o chavão do momento dizer que o consumidor hoje quer a “experiência”.  Mas, para sermos coerentes com o nosso idioma, deveríamos dizer que ele quer a “vivência”.  Esta é uma observação oportuna e importante, porque se refere a uma palavra que traduz a tendência que se acentua nos Estados Unidos e, portanto, mais cedo ou mais tarde, invadirá estes trópicos.  O consumidor quer ir às ruas para ter uma vivência, uma fruição da vida, desfrutando das atrações que a cidade lhe oferece.

Por exemplo.  Ele pode ter a comida em casa, por meio de entrega em domicílio (delivery).  Basta pegar o seu celular e pedir uma pizza. Esparramado no sofá, pode também assistir ao filme. Basta colocar na tela um desses serviços de transmissão contínua (streaming) de vídeos.  “Mas, hoje não!”, esbraveja a companheira.  Ela não aguenta mais. Quer uma vivência fora das quatro paredes de sempre.  É assim que vão a um bar, onde os aguardam a aconchegante acolhida, o ambiente decorado, a música ao vivo, o atendimento de solícitos garçons e garçonetes. Ou vão ao cinema, já na entrada comprando o chocolate e a pipoca.

Há 30 anos, os Titãs já prenunciavam com a música “Comida” o sentimento que agora se generaliza.  “A gente não quer só comida; a gente quer comida diversão e arte.A gente não quer só comida. A gente quer saída para qualquer parte. A gente não quer só comida. A gente quer bebida, diversão, balé. A gente não quer só comida. A gente quer a vida como a vida quer”.   A letra de Arnaldo Antunes foi universalmente premonitória.

Pois, então.  Os shopping-centers americanos encontram a alternativa de transformar aqueles seus enclaves de silentes consumidores em um espaço de múltiplas vivências: bares, cafés, bistrôs, restaurantes, a barbearia e o salão de beleza com o tema de um bar à Al Capone ou de um cenário da Noviça Rebelde;  a loja de artigos retrôs, com atendimento a cargo de uma garotada bem descolada; o nicho infantil, com a venda de brinquedos de madeira e a apresentação de teatro de bonecos.  E por aí vai.

A onda global é a vivência.  Ou a experiência, como dizem os arautos das corporações que já inventaram os “devices” (dispositivos) para manejar o consumo neste início do século XXI.  Em boa parte, esses propagandistas representam conglomerados inseridos no universo “on-line” e estão ansiosos para faturar com a maré novidadeira.  Na enxurrada, substituem palavras da nossa língua, trocando “começar” por “startar”, ou  “iniciar” por “inicializar”, ou “ligar” por “linkar”.  Até mesmo o Sebrae tem um projeto intitulado “food experience”. Terrível.

É natural que novas tecnologias tragam consigo designações para objetos que antes não existiam entre nós, como “mouse”, o “tablet” ou “touch screen”.  Tudo bem.  O que não se concebe é jogar no lixo o Português, trocando-se o “discreto” pelo “low profile”, o “falso” pelo “fake”, a apresentação pela “presentation”.  O professor Pasquale Cipro Neto, articulista da Folha de S. Paulo, certa vez escreveu o seguinte: “O sujeito que usa um termo em inglês no lugar do equivalente português é, na minha opinião, um idiota”.


Que nesta era da “vivência” a gente vá para as ruas, nos reencontrando uns com os outros e com a nossa pátria, a nossa mátria, a nossa língua. Que possamos vivenciar os ambientes socialmente diversificados, com praças, feiras livres, parques, bares, restaurantes, cafés, bistrôs, cinemas, quadras esportivas, pistas de caminhadas, ciclovias.  Temos de sair um pouco de frente da tela, para que possamos trazer à tona aquilo que de fato somos, neste país abençoado por Deus e bonito por natureza.  Mas que beleza. E tem carnaval.

Fonte: Destrinchando