Artigo: A missão intríseca do bar

 

A missão intrínseca do bar

*Por Paulo Solmucci, presidente da Abrasel

Um vasto número de empresas não consegue responder para si mesmas se fazem algum bem à sociedade. Qual é a razão de ser de uma siderúrgica, de uma montadora de automóveis, de uma fábrica de parafusos? A sua atividade-fim, o seu processo produtivo e os insumos utilizados na manufatura do produto que coloca no mercado já contêm contribuições à melhoria do meio ambiente, à redução da violência e da desigualdade, ao fortalecimento dos elos comunitários?

O fato é que muitas empresas têm de fazer bastante malabarismo para que alguma dimensão benévola e altruística seja localizada dentro do seu próprio organismo corporativo. Dizer que gera emprego, paga impostos e propicia tais e tais benefícios aos funcionários é chover no molhado. Tudo isso faz parte de suas obrigações. O sentido social de uma empresa é aquele vai além dos deveres que lhe são impostos por força de lei.

O que acontece é que uma metalúrgica pode, por exemplo, optar pela renúncia fiscal em favor de um projeto cultural, esportivo ou educacional. Em vez de recolher os impostos aos governos municipal, estadual ou federal, muda o destino do pagamento. Patrocina um livro ou uma gincana cultural. E daí?

Novamente, onde está a função social, cultural ou ambiental dentro das operações normais dessa metalúrgica? Em que lugar do seu organismo se alojam os atos que melhoram o ambiente social, econômico e cultural?

As instituições que carregam em si a incontornável missão de fazer bem a sociedade são as de um hospital, de uma escola ou as da segurança pública. Em cada uma delas, a razão de ser é vital. Quer dizer: são instituições cem por cento essenciais à vida.

O que faz uma companhia aérea além de propiciar a indivíduos o prazer de viajar sozinhos ou com suas famílias, ou de transportar algumas mercadorias e um certo número de executivos às reuniões de negócios? A missão de uma empresa deve contemplar objetivos sociais mais largos do que estes. Tem de abarcar algo que seja positivamente transformador, capaz de contribuir para a preservação e melhoria da vida coletiva, e não apenas algo individualizado ou puramente hedonista.

Vamos convir que hospitais, escolas, postos de polícia ou guarnições do Corpo de Bombeiros são casos absolutamente à parte. São ‘hors concours’. Em outros palavras: são incomparáveis.

Deslocando-nos para as atividades industriais, agropecuárias ou comerciais, qual é aquela que naturalmente provoca, no funcionamento cotidiano, o mais largo espectro de impactos positivos na sociedade, dos pontos de vista da diversidade e pluralidade, mobilidade e sustentabilidade?

O mundo cada vez mais condensa-se em cidades. Tanto assim que a população urbana brasileira já beira os 90%, sendo 40% das famílias com rendimento inferior a R$ 5 mil por mês, e 20% com renda inferior a R$ 2 mil. E há um agravante urbano: nossas cidades estão entre as mais espalhadas do mundo, com periferias a perder de vista.

Qual é o setor que, ao se expandir, maior contribuição pode oferecer ao primeiro emprego para os jovens das periferias e imigrantes procedentes da zona rural? Qual é o que mais pode capacitá-los profissionalmente e até prepará-los para tocar seus próprios empreendimentos? Qual é aquele setor que mais aglutina as vizinhanças, ensejando conversas entre as pessoas, aproximando-as e, assim, criando elos comunitários? E qual é aquele setor que, ao agregar gente de diferentes idades, raças, níveis educacionais e econômicos, frequentemente se torna, também, espaço de difusão cultural, em que se apresenta, por exemplo, a música ao vivo?

O referido setor é o de bares e restaurantes, que igualmente inclui cafés, bistrôs, lancherias e docerias. A sua importância no tecido das cidades é de tal ordem que esse conjunto de estabelecimentos é colocado no centro das políticas públicas municipais pelos mais renomados e respeitados urbanistas do mundo inteiro.

Mesmo nas cidades com o mais elevado nível internacional de distribuição de renda, os bares e restaurantes sempre estão colocados no alto das prioridades das políticas públicas. São cidades que, por exemplo, articularam um adensamento urbano capaz de aproximar a moradia dos locais de trabalho, estudo, lazer e serviços gerais. E nós, que padecendo de males urbanos de toda ordem, sequer consideramos os bares e restaurantes como um vetor indispensável para que nossas cidades sejam colocadas na trajetória da escala humana, já alcançada em tantos lugares do mundo?

A mencionada prioridade de tempo integral ocorre em Paris, Nova York, San Francisco, Vancouver, Copenhague, Berlim, Londres, Sydney, Melbourne, Barcelona, Madri etc.

E por aqui, onde temos imensa carência de melhor equacionar a nossa vida coletiva, pouca importância damos aos bares, cafés, bistrôs ou restaurantes.

Eles são indutores da cidade viva, menos espraiada e mais compacta, nas quais se ampliam as oportunidades de emprego aos jovens. Convertem-se em viveiros de empreendedorismo. Abrem espaço à difusão e ao compartilhamento cultural.

Basta que se inaugure um bar na esquina de casa, e se perceberá em seu próprio funcionamento a missão social, cultural e ambiental lhe é intrínseca. Esse bar naturalmente revela-se um centro emissor de vitalidade urbana. No entra e sai de gente, torna a rua menos deserta e mais movimentada. Ou seja: torna-a mais segura.

Aquele bar empregou um menino do aglomerado. O garoto está orgulhoso, feliz da vida. Cuida-se: corta as unhas, está todo arrumadinho, cumprimenta as pessoas com um bom dia ou boa noite. Começou a ficar até popular. Anos depois, com o capital acumulado nas habilidades profissionais e nas relações sociais advindas daquele primeiro emprego, resolveu montar seu próprio negócio.

Circunscrever a missão social de um bar à sua capacidade propiciar alegria e momentos de descontração aos clientes é algo de um primarismo até difícil de ser qualificado. Considerar que o bar cumpre a sua missão econômica, social e ambiental porque faz tudo com muito zelo e capricho é reduzir a praticamente nada o seu extraordinário papel impulsionador da qualidade da vida da cidade e dos seus cidadãos. A satisfação do cliente, por meio de um serviço de qualidade, deve ser o lugar comum de qualquer empresa organizada.

O que um dono de bar ou restaurante pode dizer a ele mesmo ou a quem quer que o ouça é: “Eu empreendo vida”.

Sim, eu empreendo ruas bem movimentadas e seguras, o primeiro emprego, a formação e capacitação de profissionais que podem abrir seus próprios negócios, o congraçamento, a difusão da cultura, por intermédio do grupo de chorinho que toca aqui todas as quintas-feiras. Sim, eu dou apoio aos comerciantes que são meus vizinhos, como os da farmácia, da lotérica, da banca de jornal, do açougue, do hortifrúti e da lavandaria, que vêm aqui almoçar ou tomar a sua cerveja no final do dia.

Sim, quando todos baixam as suas portas, as minhas continuam abertas, iluminando as pessoas que aguardam o ônibus no ponto aqui próximo, dando-lhe a atenção dos olhos, e, portanto, a segurança.

Sim, somos agregadores. Por isso, estamos reunidos em uma entidade, que é a soma da missão de cada um de nós. É Associação Brasileira de Bares e Restaurantes.

A nossa missão e a nossa razão de ser estão, sim, no slogan da Abrasel: a gente empreende vida.


* Artigo publicado originalmente pela revista Destrinchando