Um belíssimo horizonte


*Por Paulo Solmucci, presidente da Abrasel nacional

A marca de Belo Horizonte está vindo à alttona. É a do turismo cultural. Basta que se afrouxe o laço que prende o boneco da caixinha surpresa. Isso vem acontecendo. Agora, por exemplo, uma instrução normativa da prefeitura deixou clara a regra para os fiscais do município: os bares podem ter música ao vivo. Podem ter saraus poéticos, performances teatrais ou de dança, exposição de artes plásticas. Podem ter – como já aconteceu por aqui – palestras de cientistas, em que falam e debatem sobre astronomia ou robôs.

Quem deu a primeira destravada na caixinha surpresa foram estes heróis da história de Belo Horizonte: o prefeito Alexandre Kalil, a secretária de Serviços Urbanos, Maria Caldas, a secretária de Comunicação Social, Adriana Branco, e o líder do governo na Câmara Municipal, vereador Leo Burguês. Ainda há muito a se fazer para que esta nossa cidade apenas centenária se torne uma referência nacional e internacional do turismo de cultura, latu sensu, aí compreendendo todas as artes e as áreas da inovação tecnológica.

Belo Horizonte se converterá em uma espécie de Portland, a cidade americana de 600 mil habitantes, que geograficamente se situa no polo oposto a Nova York City, em uma distância rodoviária de quatro mil quilômetros. Fica a 200 quilômetros do oceano Pacífico. Está no 26º lugar no ranking nacional de população urbana dos Estados Unidos. Mas Portland encontrou seu lugar de destaque no cenário americano. Foi classificada, pela revista Forbes, como a cidade número um dos Estados Unidos para os artistas em geral.

No mesmo ranking da Forbes, Portland é a sexta para jovens casais, a sétima para jovens profissionais, a oitava mais legal (‘coolest’), a nona para músicos, a nona para as moças, a décima mais amigável aos gays, a décima-primeira mais bela. O baterista californiano Jimmy Duchowny está convicto de que Belo Horizonte tem tudo para conquistar essa marca ‘cult’ e ‘cool’, semelhante à de Portland. Ele é apaixonado por ambas.

Jimmy formou-se na Berkeley School of Music. Mudou-se para o Rio em 1987. Depois, em 1997, acabou conhecendo Belo Horizonte. Encantou-se pelo ambiente musical da cidade. Diz que Belo Horizonte só perde para São Paulo na intensidade da relação dos músicos com os bares e restaurantes. Ele afirma, com toda convicção, que Belo Horizonte está, nesse aspecto, bem à frente do Rio.

Removendo-se o obstáculo existente antes da instrução normativa que institucionalizou a música e a cultura como parte do negócio dos bares, Jimmy não duvida que, agora sim, Belo Horizonte irá ao primeiro lugar, superando até mesmo a capital paulista. Uma das grandes qualidades da capital mineira é, a seu ver, a quantidade de festivais. Cita o ‘I Love Jazz’, a ‘Festa da Música’, o ‘Savassi Festival’ e o ‘Festival da Gentileza’, este na Praça da Liberdade. Há, ainda, as recorrentes apresentações da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, a segunda melhor do país.

A Virada Cultural e o Carnaval mostraram, a quem quiser ver, que agora Belo Horizonte está explodindo de felicidade, tornando-se, pouco a pouco, uma cidade tão legal, amigável e culturalmente diversificada quanto já é Portland, que se projetou no mapa dos Estados Unidos pelo ambiente cultural. Criou-se uma atmosfera extremamente favorável para esse novo tempo de Belo Horizonte, e aí não se pode deixar de sublinhar o magnífico trabalho de Leônidas de Oliveira, presidente da Fundação Municipal de Cultura.

Na nossa região metropolitana, há o maior museu a céu aberto do mundo, o Inhotim, que já é uma atração internacional. Belo Horizonte é a Meca da cerveja artesanal do país; é a Bélgica brasileira. Temos o Grupo Corpo, o Grupo Galpão, um histórico grande rol de escritores e artistas plásticos. Temos o artesanato, a gastronomia, uma vasta legião de músicos. Para usufruir tudo isso, na calçada e ao ar livre, há o clima ameno na maior parte do ano, com uma longa temporada praticamente sem chuva, que vai de maio a setembro.

Enfim, é preciso que se abram as cortinas do nosso espetáculo nos mais de 18 mil estabelecimentos da alimentação fora do lar, em uma cidade que é a capital nacional dos botecos. Pelo menos cinco mil bares vão aderir, prontamente, à incorporação da cultura nos seus negócios diários. Bares que serão mais e mais frequentados pela moçada do empreendedorismo tecnológico do San Pedro Valley e por todos os rapazes e garotas das startups que, anualmente, se fazem presentes na Finit, a maior feira latino-americana dos negócios da ciência e da inovação, realizada no Expominas.

Se aquela cidade americana tem como slogan ‘Keep Portland weird’ (Mantenha Portland esquisita), evidenciando-se a sua faceta descolada e hipster, aqui podemos escrever simplesmente assim o slogan de Belo Horizonte, com uma exclamação em larga pincelada, à moda do pintor Amílcar de Castro: ‘Belíssimo!’

(Post Scriptum – PS: A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) trabalhou durante ininterruptos cinco anos para que acontecesse a liberação da cultura nos seus estabelecimentos da capital mineira. E, aí, estão as impressões digitais de dirigentes da Abrasel em Minas: as do seu ex-presidente, Fernando Júnior, as do atual presidente, Ricardo Rodrigues, e, também, as do seu incansável e muito competente diretor executivo, Lucas Pêgo)

* Artigo publicado originalmente pela revista Destrinchando