Por Paulo Solmucci Junior, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel)

Nas últimas semanas tem se multiplicado o número de espaços online dedicados à divulgação de preços praticados pelo setor de alimentação fora do lar, como por exemplo, as fanpages(páginas do facebook) BH Surreal e Rio Surreal. Mas, para entender melhor estes fenômenos, é necessário ir mais a fundo. Fato é que os bares e restaurantes não gostariam de praticar preços considerados “surreais” pelos clientes. Primeiro, porque estes empreendimentos precisam atrair o consumidor e isso só acontece quando, entre outros fatores, este consumidor se sente confortável, valorizado e vê real valor naquilo que está consumindo. Segundo porque o mercado aquecido, competitivo é saudável para todos.

Os preços que vemos hoje são reflexo de uma série de ônus que vem sobrecarregando os empresários,resultando numa inflação acima da médiapara o setor. Alta no preço dos alimentos, bebidas, mão de obra, alugueis são algumas das despesas que influenciam diretamente a precificação dos produtos e serviços oferecidos por bares e restaurantes. Os donos destes estabelecimentos têm criado alternativas para diminuir os custos, como no caso dos alimentos. Muitos lugares têm adotado o “prato do dia” ou valorizado ingredientes sazonais. Mas alguns gastos são atualmente impossíveis de ser diminuídos, como é o caso dos alugueis e mão de obra. O dono do imóvel não vai baixar o valor mensal pago pelo locatário, principalmente considerando os gastos que este teria com reforma, instalação de cozinha industrial, etc. O empresário fica, de certa forma, refém daquele espaço, devido aos altos custos que uma mudança implicaria, além da possível perda dos clientes habituais.

Além disso, há a grande questão da mão de obra, que pesa muito no bolso destes empresários. Em vários países da Europa e nos Estados Unidos o trabalho intermitente já é uma realidade. A jornada móvel possibilita priorizar os momentos de maior fluxo de pessoas e o funcionário tem mais flexibilidade.Esta modalidade torna possível, por exemplo, que nos EUA o principal setor a inserir o jovem no mercado de trabalho seja o de bares e restaurantes, com 27% dos primeiros empregos.

A nossa luta é para que seja o trabalho intermitente seja também regularizado no Brasil. Vale destacar também que muitos jovens brasileiros deixam a escola por falta de recursos para arcar com os custos ou porque conseguiram um emprego, estes quase sempre em horário integral e sem a necessária flexibilidade para quem quer estudar e trabalhar.Em momento de Copa do Mundo e de Olimpíadas, a absorção destes jovens seria a melhor forma de garantir um melhor atendimento, especialmente em uma segunda língua, pois se há no Brasil um grupo que tem condições de responder a este desafio são os jovens que estão nas escolas.

Outro ponto que merece destaque é informar ao consumidor final que, atualmente, um terço de tudo o que o bar ou restaurante arrecada é destinado ao pagamento de tributos para o munícipio, estado e União. Por isso, movimentos como os promovidos pelas páginas BH Surreal e Rio Surreal são importantes. Vemos os consumidores como aliados para reivindicar aos governos que reduzam a carga tributária que recaí sobre nosso setor .

 

Afinal, seria muito simplista colocar os donos de bares e restaurantes como “vilões” dos preços considerados abusivos. É fundamental entender o que está por trás da formação de preço e como os custos estabelecidos pelas administrações municipais, estaduais e federal têm grande impacto na operação destes estabelecimentos.